16/09/2022

Entenda o calendário litúrgico da Igreja Católica

Artigo de André Aloísio publicado no blog do Pocket Terço, dia 15/09/2022.

O calendário litúrgico da Igreja Católica é constituído por três anos, cada ano com cinquenta e dois domingos, organizados de tal modo a celebrar as principais etapas da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, especialmente seu nascimento (Natal) e sua morte e ressurreição (Páscoa).

Domingo e Sexta-feira

O domingo é o dia de celebração por excelência, desde a era apostólica (At 20, 7; 1Cor 16, 2), por ser o dia da ressurreição de Cristo (Jo 20, 1. 19. 26). Ele é a Páscoa semanal, dia no qual os fiéis se reúnem para ouvir a Palavra de Cristo especialmente no Evangelho e se alimentar de Cristo na Eucaristia, celebrando sua ressurreição.

Além disso, desde o início da Igreja, como podemos ver no documento cristão do final do século I conhecido como Didaquê, a sexta-feira é um dia de penitência, no qual se faz abstinência de carne semanalmente em recordação da paixão e morte de nosso Senhor, que morreu numa sexta-feira.

Natal e Páscoa

Cada ano litúrgico gira em torno de dois grandes centros: o Natal e a Páscoa, sendo essa última a solenidade mais importante do ano litúrgico. O Natal ou nascimento de Jesus (Lc 2, 1-20) é comemorado em uma data fixa, dia 25 de dezembro, no início do solstício do inverno no hemisfério norte. A partir do solstício do inverno, o Sol fica cada vez mais alto no céu e os dias cada vez mais longos, representando o nascimento do “sol da justiça”, Cristo, “trazendo a cura em suas asas” (Ml 3, 20).

A Páscoa, que comemora a ressurreição do Senhor (Jo 20, 1-9), por outro lado, é celebrada em uma data móvel, no primeiro domingo após a Páscoa judaica, que ocorre na primeira lua cheia após o equinócio da Primavera no hemisfério norte. Assim, o domingo da Páscoa pode cair entre 22 de março e 25 de abril.

Essas duas solenidades são antecedidas e seguidas por períodos com quase a mesma duração.

Ciclo do Natal

O Natal é antecedido pelo Advento, que começa quatro domingos antes do Natal, dando início ao ano litúrgico. O Advento é um período de penitência e de preparação para a vinda de Cristo, utilizando o roxo como cor litúrgica. As duas primeiras semanas são marcadas pela expectativa da segunda vinda de Cristo, enquanto as duas últimas aguardam a sua primeira vinda no Natal. O terceiro domingo do Advento é o “Domingo da Alegria”, onde nos alegramos com a proximidade da chegada de Jesus (Lc 1, 28), e o roxo dá lugar ao rosa na liturgia. Dentro desse período, no dia 8 de dezembro, se celebra com a cor litúrgica branca a solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora (Lc 1, 26-38), que consistiu na preservação da Virgem Maria do pecado original, para que estivesse preparada para conceber e dar à luz o próprio Deus.

O Natal é seguido pelo Tempo do Natal, que vai até a festa do Batismo do Senhor, no domingo ou segunda-feira imediatamente após o dia 6 de janeiro. O Natal e o Tempo do Natal têm o branco como cor litúrgica. O período entre o Natal e a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (Lc 2, 16-21), uma semana após o Natal, no dia 1º de janeiro, é chamado de Oitava de Natal. Dentro do Tempo do Natal há mais algumas solenidades e festas: festa dos Santos Inocentes (Mt 2, 13-18), no dia 28 de dezembro, única do período com a cor litúrgica vermelha; festa da Sagrada Família (Mt 2, 13-23), no primeiro domingo após o Natal; festa do Santíssimo Nome de Jesus, cerca de oito dias após o Natal, quando Jesus foi circuncidado e recebeu o nome (Lc 2, 21), no dia 3 de janeiro; solenidade da Epifania, que comemora a manifestação de Jesus como Cristo, especialmente aos reis magos (Mt 2, 1-12), no dia 6 de janeiro, que no Brasil é transferida para o domingo mais próximo; e a festa do Batismo do Senhor (Mt 3, 13-17), que encerra o Tempo do Natal. O Advento e o Tempo do Natal formam juntos o Ciclo do Natal.

Existem solenidades e festas fora do Tempo do Natal que estão a ele relacionados: a festa da Natividade de Nossa Senhora (Mt 1, 1-23), no dia 8 de setembro; a solenidade de São José (Mt 1, 16. 18-21. 24), no dia 19 de março; a solenidade da Anunciação do Senhor (Lc 1, 26-38), nove meses antes do Natal, no dia 25 de março; a festa da Visitação da Nossa Senhora (Lc 1, 39-56), no dia 31 de maio; a solenidade da Natividade de São João Batista (Lc 1, 57-66), seis meses antes do Natal (cf. Lc 1, 36), no dia 24 de junho, próximo ao solstício do verão no hemisfério norte, a partir da qual o Sol fica cada vez mais baixo no céu e os dias cada vez mais curtos, até o Natal, lembrando as palavras de São João Batista: “É preciso que ele cresça, e eu diminua” (Jo 3, 30); e a festa da Apresentação do Senhor (Lc 2, 22-40), quarenta dias após o Natal, no dia 2 de fevereiro. Todas elas têm como cor litúrgica o branco.

Ciclo da Páscoa

A Páscoa é antecedida pela Quaresma, que se inicia com a Quarta-Feira de Cinzas, dia de penitência e jejum (Jl 2, 12-18; Mt 6, 1-18), quarenta dias antes da Páscoa, sem contar os domingos, num total de quase sete semanas. Na Bíblia, o número quarenta está bastante associado com a penitência e o jejum. O Dilúvio, que foi um juízo contra o pecado, durou quarenta dias (Gn 7, 17). Moisés ficou quarenta dias sem comer e sem beber, quando recebeu a Lei (Ex 34, 28). Israel caminhou quarenta anos no deserto em penitência pelos seus pecados (Nm 14, 34). Elias caminhou quarenta dias sem comer até o Monte Horeb (1Rs 19, 8). Os ninivitas fizeram penitência por quarenta dias, para que Deus não destruísse sua cidade (Jn 3, 4-10). E, especialmente, o Senhor Jesus jejuou por quarenta dias no deserto (Mt 4, 1-2). Assim, a Quaresma é um período de penitência, em que se recomenda a abstinência de carne, em preparação para a Páscoa. A cor litúrgica desse período é o roxo, mas no quarto domingo da Quaresma utiliza-se o rosa.

O domingo imediatamente antes da Páscoa é o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, em que se recorda tanto a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (Mt 21, 1-11) quanto sua paixão e morte (Mt 26–27). Sua cor litúrgica é o vermelho. Esse domingo dá início à Semana Santa, a semana mais importante do ano litúrgico. Dentro dessa semana, merecem destaque a bênção feita pelo bispo, na Quinta-feira Santa, dos santos óleos dos Catecúmenos, do Crisma e dos Enfermos, usados nos sacramentos correspondentes, e especialmente o Tríduo Pascal.

O Tríduo Pascal põe fim à Quaresma e prepara mais diretamente para a Páscoa. Ele envolve três momentos. Primeiro, a Missa da Instituição da Eucaristia com a Cerimônia do Lava-Pés (1Co 11, 23-26; Jo 13, 1-15), na noite da Quinta-feira Santa, com a cor litúrgica branca. Depois dessa missa, guarda-se a hóstia consagrada para a Sexta-feira Santa. O segundo momento é a Celebração da Paixão do Senhor, na tarde da Sexta-feira Santa, dia de jejum e penitência, em que se recorda a paixão e morte de Cristo a partir do Evangelho de João (Jo 18–19), com a cor litúrgica vermelha. Esse é o único dia do ano em que não há Eucaristia, apenas comunhão da hóstia consagrada no dia anterior. Os fiéis são convidados a contemplar o Cristo crucificado que morre na cruz. O terceiro momento é a Vigília Pascal, a mãe de todas as vigílias, na noite do Sábado Santo, em que se aguarda a ressurreição de Cristo (Mt 28, 1-10) no Domingo de Páscoa, com a cor litúrgica branca, e em que os catecúmenos recebem o Batismo, a Crisma e a Primeira Comunhão.

A Páscoa é seguida pelo Tempo Pascal, que vai até o Domingo de Pentecostes, cinquenta dias depois da Páscoa, num total de sete semanas. A Páscoa e o Tempo Pascal têm o branco como cor litúrgica. A semana entre o Domingo da Páscoa e o domingo seguinte, o Domingo da Divina Misericórdia (Jo 20, 19-31), é chamada de Oitava da Páscoa. No Tempo Pascal são celebradas a solenidade da Ascensão do Senhor (Lc 24, 46-53), quarenta dias depois da Páscoa, numa quinta-feira, que no Brasil é transferida para o domingo seguinte, com a cor litúrgica branca; e a solenidade de Pentecostes, em que se comemora a descida do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os apóstolos no cenáculo (At 2, 1-11), com a cor litúrgica vermelha. Nos nove dias entre a Quinta-feira da Ascensão e o Domingo de Pentecostes, assim como os discípulos oraram pela vinda do Espírito Santo (At 1, 10-14; 2.1-4), também oramos na Novena de Pentecostes, a mãe de todas as novenas. A Quaresma e o Tempo Pascal formam juntos o Ciclo da Páscoa.

Existem solenidades e festas fora do Tempo Pascal que estão a ele relacionados: a solenidade da Santíssima Trindade (Jo 16, 12-15), no domingo seguinte ao Domingo de Pentecostes; a solenidade de Corpus Christi, que celebra a presença real e substancial de Cristo na Eucaristia (Jo 6, 51-58), na quinta-feira imediatamente após o domingo da Santíssima Trindade; a solenidade do Sagrado Coração de Jesus que celebra o Coração Transpassado na cruz, do qual jorrou sangue e água (Jo 19, 31-37), na segunda sexta-feira após o Corpus Christi; a festa da Transfiguração do Senhor, antecipação da sua glorificação na Páscoa (Lc 9, 28-36), no dia 6 de agosto; a solenidade da Assunção da Nossa Senhora (Ap 11, 19–12, 6. 10), participação na ressurreição de seu Filho, no dia 15 de agosto, que no Brasil é transferida para o domingo seguinte; e a festa da Exaltação da Santa Cruz (Jo 3, 13-17), no dia 14 de setembro. Todas elas têm como cor litúrgica o branco, com exceção da festa da Exaltação da Santa Cruz, cuja cor litúrgica é o vermelho.

Tempo Comum

O tempo litúrgico fora dos Ciclos do Natal e da Páscoa, entre a festa do Batismo do Senhor e o início da Quaresma, e entre o Domingo de Pentecostes e o início do Advento, é chamado de “Tempo Comum” e tem como cor litúrgica o verde. Nesse tempo se celebra, especialmente aos domingos, tudo o que Jesus disse e fez para a nossa salvação.

Além das solenidades e festas já mencionadas, no Tempo Comum temos também a solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, no dia 29 de junho, que no Brasil é transferida para o domingo seguinte, com a cor litúrgica vermelha; a solenidade da Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, no dia 12 de outubro, com a cor litúrgica branca; a solenidade de Todos os Santos, no dia 1º de novembro, que no Brasil é transferida para o domingo seguinte, com a cor litúrgica branca; a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, no dia 2 de novembro, com a cor litúrgica preta; e a solenidade do Cristo Rei, no último domingo do ano litúrgico, imediatamente antes do início do Advento, preparando a espera da vinda do Senhor, com a cor litúrgica branca.

Solenidades, Festas, Memórias e Dias de Preceito

No ano litúrgico há solenidades, festas e memórias. As solenidades, já mencionadas neste artigo, são as celebrações de mais alto grau, reservadas aos mistérios mais importantes da fé, relacionados ao Nosso Senhor Jesus Cristo, a Nossa Senhora, a São José e a santos importantes para a história da salvação, como São João Batista, São Pedro e São Paulo.

As festas honram algum mistério ou título de Jesus, de Maria e de anjos e santos particularmente relevantes, como os apóstolos, os evangelistas e outros santos e eventos importantes na Bíblia e na história. Além das festas já mencionadas neste artigo, outras dignas de nota são: Nossa Senhora do Carmo, no dia 16 de julho; Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina, no dia 12 de dezembro; Arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael, no dia 29 de setembro; os Santos Anjos da Guarda, no dia 2 de outubro; a Cátedra de São Pedro, que recorda a autoridade do Papa e de seu Magistério, no dia 22 de fevereiro; e a Dedicação da Basílica de Latrão, a Catedral do Papa, no dia 9 de novembro.

As memórias são geralmente a celebração de um santo, mas podem também celebrar algum aspecto de Jesus ou de Maria. Alguns importantes exemplos são o Imaculado Coração de Maria, no sábado seguinte à solenidade do Sagrado Coração de Jesus; Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, no dia 6 de junho; Nossa Senhora Rainha, no dia 22 de agosto; Nossa Senhora das Dores, no dia 15 de setembro; Nossa Senhora do Rosário, no dia 7 de outubro; e a Apresentação de Nossa Senhora, no dia 21 de novembro.

Das solenidades mencionadas neste artigo, são dias de preceito obrigatórios aos católicos todos os domingos do ano, todas as solenidades que caem no domingo e as solenidades de Santa Maria Mãe de Deus, de Corpus Christi, da Imaculada Conceição e do Natal.

Anos A, B e C

O calendário litúrgico é constituído por três anos: A, B e C. No ano A, o Evangelho lido aos domingos é o de São Mateus; no ano B, o de São Marcos; e no ano C, o de São Lucas. O Evangelho de São João é lido em algumas festas e solenidades e, especialmente, no Tempo Pascal. Nos demais dias da semana, todo ano são lidos os três Evangelhos Sinóticos no Tempo Comum, começando por São Marcos, seguido por São Mateus e, então, por São Lucas, e no Tempo do Natal e no Tempo da Páscoa, lê-se o Evangelho de São João.

As leituras são dispostas de tal modo que, a cada três anos, quase a totalidade dos quatro Evangelhos é lida nas missas, além de uma porção substancial do Antigo Testamento e do Novo Testamento.

Conclusão

Por fim, o calendário litúrgico não é apenas uma forma de recordar os eventos principais da história da salvação. Mais do que isso, ele atualiza o mistério de Cristo e os eventos salvíficos, tornando-os presentes e fazendo-nos participantes deles. Como diz o Catecismo da Igreja Católica, no número 1085:

“Na liturgia da Igreja, Cristo significa e realiza principalmente o seu mistério pascal. Durante a sua vida terrena, Jesus anunciava pelo seu ensino e antecipava pelos seus atos o seu mistério pascal. Uma vez chegada a sua ‘Hora’, Jesus vive o único acontecimento da história que não passa jamais: morre, é sepultado, ressuscita de entre os mortos e senta-Se à direita do Pai ‘uma vez por todas’ (Rm 6, 10; Hb 7, 27; 9, 12). É um acontecimento real, ocorrido na nossa história, mas único; todos os outros acontecimentos da história acontecem uma vez e passam, devorados pelo passado. Pelo contrário, o mistério pascal de Cristo não pode ficar somente no passado, já que pela sua morte, Ele destruiu a morte; e tudo o que Cristo é, tudo o que fez e sofreu por todos os homens, participa da eternidade divina, e assim transcende todos os tempos e em todos se torna presente. O acontecimento da cruz e da ressurreição permanece e atrai tudo para a vida”.

Por isso, cantamos no Natal: “Nasceu-nos ‘hoje’ um menino”. Na Quinta-feira Santa, o sacerdote diz na oração eucarística: “Na noite em que ia ser entregue, para padecer pela salvação de todos, isto é, ‘hoje’, ele tomou o pão em suas mãos, elevou os olhos a vós, ó Pai, deu graças e o partiu...”. E no Domingo da Páscoa, cantamos o Sl 117 (118): “’Este’ é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!”.

Que com esse novo entendimento do calendário litúrgico da Igreja Católica, a sua participação na liturgia seja mais frutuosa, para a glória de Deus e para o bem da sua alma!

Assista também: Tempos Litúrgicos

12/09/2022

A Virgem Maria é a Rainha-Mãe (Parte 2)

Artigo de André Aloísio publicado no blog do Pocket Terço, dia 09/09/2022.

Vimos no artigo anterior que Deus sempre desejou que a mulher reinasse com o homem (Gn 1, 26-30), ou que a mãe reinasse com o filho (Gn 3, 15), o que começou a se tornar realidade com a instituição da rainha-mãe no antigo Israel (1Rs 2, 19; Sl 44 [45], 10 [9]; Jr 29, 2). Neste artigo, veremos três passagens do Novo Testamento que apresentam a Virgem Maria como a Rainha-Mãe no novo Israel, a Igreja: Mt 1-2, Lc 1, 26-45 e Ap 12.

A Virgem Maria como Rainha-Mãe em Mateus 1-2

A passagem de Mt 1-2 está recheada de referências à ideia de reino: o termo “Cristo” ou “Messias” (Mt 1, 1. 16-18; 2, 4), que significa “Ungido”, era usado especialmente para os reis (2Sm 22, 51; 23, 1; Sl 2, 2; 17 [18], 51 [50]; etc.); Jesus é chamado de “filho de Davi” (Mt 1, 1; cf. 2Sm 7, 10-16) e “rei dos judeus” (Mt 2, 2); Davi é chamado de “rei” (Mt 1, 6) e é um divisor de águas na genealogia (Mt 1, 17); a genealogia é dividida em três seções de catorze gerações (Mt 1, 17) e o número catorze representa a soma dos valores numéricos correspondentes às letras hebraicas do nome “Davi” (“dvd”: d (4) + v (6) + d (4) = 14); São José, pai adotivo de Jesus (Mt 1, 25), é chamado de “filho de Davi” (Mt 1, 20); Jesus nasce em Belém, cidade de Davi (Mt 2, 1); a estrela (Mt 2, 2), tanto na cultura romana quanto no Antigo Testamento, serve como sinal da chegada de um rei (Nm 24, 17); Mateus cita a profecia de Mq 5, 2, que trata de um futuro rei de Israel (Mt 2, 5-6); os magos prestam homenagem a Jesus como um rei (Mt 2, 11; cf. Is 60, 1. 5-6; Sl 71[72], 10-11; 1Rs 10, 2. 10); etc.

Nesse contexto real, Mateus cita a profecia de Is 7, 14: “Eis que a virgem ficará grávida e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel” (Mt 1, 23). No contexto original dessa profecia de Isaías, Jerusalém está sob ameaça da Síria e do reino do Norte de Israel, que querem substituir o rei Acaz, descendente de Davi, pelo filho de Tabeel, o que deixa Acaz preocupado (Is 7, 1-2. 6). Então, Isaías assegura Acaz de que isso não acontecerá (Is 7, 7) e lhe diz para pedir ao Senhor um sinal na profundeza ou nas alturas (Is 7, 10). Como Acaz se recusa a pedir um sinal, o Senhor lhe dá como sinal a profecia de Is 7, 14. No hebraico, a profecia diz que “a jovem [‘almah’] ficará grávida e dará à luz um filho, e será chamado o seu nome Emanuel” (Is 7, 14). O sinal é uma resposta à preocupação de Acaz de que a dinastia de Davi chegasse ao fim. Nesse sentido, a jovem da profecia é a esposa de Acaz e o filho é o futuro rei Ezequias, que garantem a continuidade da dinastia davídica. Antes de Ezequias chegar à idade da razão, a capital da Síria seria destruída e parte do reino do Norte de Israel seria tomada por Tiglate-Pileser III, rei da Assíria (Is 7, 15-16; cf. 2Rs 15, 29; 16, 9). Se a jovem da profecia é a mãe do rei Ezequias, descendente de Davi, segue-se que ela é a rainha-mãe, segundo o padrão visto no artigo anterior. Portanto, ao aplicar essa profecia à Virgem Maria que dá à luz ao Senhor Jesus (usando a Septuaginta, que traduz “jovem” por “virgem” [“parthenos”]), Mateus está identificando Nossa Senhora como a Rainha-Mãe do Rei Jesus.

Essa identificação da Virgem Maria como Rainha-Mãe é confirmada pela genealogia de Mateus, que faz referência a cinco mulheres: Tamar (Mt 1, 3), Raab (Mt 1, 5), Rute (Mt 1, 5), a mulher de Urias (Betsabeia: Mt 1, 6) e a Virgem Maria (Mt 1, 16). Todas essas mulheres têm em comum o fato de que deram à luz a partir de uniões “irregulares”: Tamar cometeu incesto (Gn 38), Raab era canaanita e prostituta (Js 2; 6), Rute era moabita (Rt 1–4), Betsabeia cometeu adultério (2Sm 11; 12) e a Virgem Maria ficou grávida pelo Espírito Santo antes do casamento com São José (Mt 1, 18). Porém, mais importante do que isso, todas essas mulheres deram à luz filhos na genealogia de Davi: Tamar deu à luz Farés através de Judá (Gn 38, 27-30), e é de Judá que vem o rei (Gn 49, 10); Raab deu à luz Booz, bisavô de Davi (Mt 1, 5), e Rute deu à luz Obed através de Booz, avô de Davi (Rt 4, 13-22); Betsabeia deu à luz Salomão, sendo provavelmente a primeira rainha-mãe de Israel (2Sm 12, 24; 1Rs 1, 13-20); e a Virgem Maria, como sabemos, deu à luz ao Cristo prometido, o Rei Jesus. A associação de Nossa Senhora com todas essas mulheres ligadas à linhagem real de Davi, e especialmente com Betsabeia, rainha-mãe, fortalece sua identificação como a Rainha-Mãe no Novo Testamento.

Finalmente, a Virgem Maria é descrita frequentemente nessa seção de Mateus como Mãe de Jesus (Mt 1, 18; 2, 11. 13. 14. 20. 21), o que lembra o padrão de Reis e Crônicas de quase sempre apresentarem a mãe do rei de Israel no início do seu reinado, como vimos no artigo anterior. É especialmente significativa a referência à Nossa Senhora como Mãe de Jesus em Mt 2, 11, quando Jesus é homenageado pelos magos como rei dos judeus (cf. Mt 2, 2) com ouro, incenso e mirra. São José, que é muito mais proeminente do que a Virgem Maria nos capítulos 1 e 2 de Mateus, de repente dá lugar à Virgem Maria no momento mais importante dessa seção. Isso reforça o fato de que Nossa Senhora, a Mãe do Rei homenageado, é a Rainha-Mãe.

A Virgem Maria como Rainha-Mãe em Lucas 1, 26-45

As passagens da Anunciação (Lc 1, 26-38) e da Visitação (Lc 1, 39-45) também contêm muitas referências reais: São José é “da casa de Davi” (Lc 1, 39); Jesus será chamado “Filho do Altíssimo” (Lc 1, 32) e “Filho de Deus” (Lc 1, 35), como o rei davídico do Antigo Testamento (2Sm 7, 14; Sl 2, 7; 88 [89], 27-28 [26-27]); Deus dará a Jesus o trono de seu pai Davi (Lc 1, 32), ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó e o seu reino não terá fim (Lc 1, 32-33; cf. 2Sm 7, 9-16); Deus depôs os poderosos de seus tronos e exaltou os de condição humilde (Lc 1, 52); etc.

Na Anunciação, a Virgem Maria aparece como Rainha-Mãe especialmente através de uma alusão a Is 7, 14 em Lc 1, 31 (a mesma profecia citada em Mt 1, 23): “Conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus”. A alusão é praticamente idêntica a Isaías, com a mudança dos verbos da terceira para a segunda pessoa do singular, e do nome de “Emanuel” para “Jesus”. Além disso, a Anunciação tem vários paralelos com o contexto da profecia de Is 7, 14: “virgem” (Lc 1, 27. 34; Is 7, 14), “casa de Davi” (Lc 1, 27; Is 7, 13), “o Senhor” (Lc 1, 28; Is 7, 10), “sobre a casa” (Lc 1, 31; Is 7, 17) e a saudação “o Senhor está contigo” (Lc 1, 28), cujo significado está associado ao nome “Emanuel” (“Deus conosco”: Is 7, 14). Através dessa alusão a Is 7, 14, a Virgem Maria é novamente associada com a rainha-mãe do rei Ezequias, sendo assim identificada como a Rainha-Mãe do Rei Jesus.

Na Visitação, Nossa Senhora é apresentada como Rainha-Mãe de algumas formas. Primeiro, ela é chamada por Santa Isabel de “mãe do meu Senhor” (Lc 1, 43). Vimos em um artigo de outra série que o “Senhor” aqui é Deus (Lc 1, 28. 32. 38. 46. 58. 68), de modo que, se o Filho da Virgem Maria é Deus, ela é a Mãe de Deus. Certamente, essa é a intenção de São Lucas ao registrar essa história. Porém, é provável que quando Santa Isabel pronunciou essas palavras, ela estivesse usando o termo “meu Senhor” primeiramente como uma referência ao rei davídico, o Messias (2Sm 24, 21; 1Rs 1, 13-47), como no Sl 109 (110), 1: “Disse o SENHOR ao meu senhor: ‘Senta-te à minha direita, até que eu faça de teus inimigos o estrado dos teus pés’” (cf. Lc 20, 41-44). Desse modo, ao chamar a Virgem Maria de “mãe do meu Senhor”, Santa Isabel está dizendo que Nossa Senhora é a Mãe do Rei, a Rainha-Mãe.

Além disso, a saudação de Santa Isabel à Virgem Maria, “Bendita és tu entre as mulheres” (Lc 1, 42) é uma alusão a Jz 5, 24, que descreve a mulher Jael que matou Sísera com uma estaca na cabeça (Jz 4, 17-21), e a Jt 13, 18, que descreve Judite que matou Holofernes cortando-lhe a cabeça (Jt 13, 6-9), como vimos em um artigo de outra série. Ambas as passagens, por sua vez, são alusões a Gn 3, 15, que como vimos no artigo anterior, apresenta a mulher reinando sobre a serpente juntamente com seu filho, assim como era o propósito de Deus que a mulher reinasse com o homem em Gn 1, 28. Portanto, através dessa alusão remota a Gn 3, 15, a Virgem Maria também é identificada como uma rainha.

Por isso, a Virgem Maria responde às palavras de Santa Isabel com o Cântico de Maria, conhecido como Magnificat (Lc 1, 46-55), onde em Lc 1, 52 diz que Deus “Depôs os poderosos de seus tronos e exaltou os de condição humilde”. Os de condição humilde que são exaltados são o Senhor Jesus, obviamente, mas também a própria Virgem Maria, serva de “condição humilde” para a qual Deus olhou (Lc 1, 48) e pela qual o Senhor fez grandes coisas (Lc 1, 49). E essa exaltação envolve se assentar nos tronos dos poderosos que foram depostos, o que também pode ser percebido por uma comparação com o Cântico de Ana (1Sm 2, 1-10), que serve de inspiração para o Cântico de Maria: “Levanta do pó o necessitado e do monturo ergue o indigente: dá-lhe assento entre os príncipes, um trono de glória lhe dá por quinhão” (1Sm 2, 8). Logo, tanto o Senhor Jesus, como Rei, quanto Nossa Senhora, como Rainha-Mãe, se assentam nos tronos dos poderosos, ainda que o reinado deles seja de uma natureza diferente do reinado dos poderosos (Lc 22, 25-26).

A Virgem Maria como Rainha-Mãe em Apocalipse 12

A passagem de Ap 12 apresenta muitas alusões ao Antigo Testamento, especialmente ligadas ao reino.

Aparece um sinal no céu, que envolve uma mulher com uma coroa (Ap 12, 1), o que indica ser ela uma rainha (cf. Ap 2, 10; 3, 11; 4, 4. 10; 6, 2; 14, 14), dando à luz um filho “que veio para governar todas as nações com cetro de ferro” (Ap 12, 5), citação do Sl 2, 9 que se refere ao rei davídico. Isso lembra a passagem de Is 7, onde Deus manda que Acaz peça um sinal nas alturas excelsas (Is 7, 10) e o sinal dado é uma rainha-mãe dando à luz um filho rei (Is 7, 14).

A mulher está “vestida do sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas” (Ap 12, 1). Isso é uma alusão ao sonho de José em Gn 37, 9-11, onde o sol, a lua e as estrelas representam a família de Israel, sobre a qual José exerceria autoridade como o segundo depois de Faraó (Gn 41, 40. 57; 42, 6). O fato de a lua estar “debaixo dos pés” indica também a autoridade real da mulher, pois, como visto no artigo anterior, essa linguagem no Antigo Testamento é usada para descrever o reinado do rei de Israel sobre os inimigos (Nm 24, 17; 2Sm 22, 37-43; Sl 88 [89], 24 [23]; 109 [110], 1. 6; cf. Sl 8, 7 [6]).

A mulher está grávida e grita de dor, atormentada pelo trabalho do parto (Ap 12, 2), como a mulher em Gn 3, 16 e como Jerusalém em Is 26, 17 e 66, 7-8. Ela dá à luz tanto ao filho rei (Ap 12, 5) quanto a outros filhos, que são chamados no grego de “descendência” da mulher (Ap 12, 17), o que lembra Gn 3, 15, que fala da descendência da mulher, e Is 66, 7-8, onde Jerusalém dá à luz tanto ao rei davídico quanto a outros filhos. Além disso, a mulher e a descendência da mulher estão em luta contra um dragão (Ap 12, 3-6. 13-16), que é a antiga serpente (Ap 12, 9), assim como em Gn 3, 15 há um conflito entre a serpente e a mulher com sua descendência. E como já foi visto neste artigo, Gn 3, 15 também associa a mulher ao reinado.

O filho da mulher é arrebatado para junto de Deus e do seu trono (Ap 12, 5), numa referência à ressurreição e à ascensão do Senhor Jesus, quando ele se assentou à direita do Pai e passou a reinar (Sl 109 [110], 1), e o dragão foi expulso do céu por São Miguel e seus anjos (Ap 12, 7-9). Quando isso acontece, uma voz forte no céu proclama: “Agora chegou a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo” (Ap 12, 10). Após o arrebatamento de seu filho, a mulher foge da serpente voando para o deserto, pois recebeu as duas asas da grande águia, e no deserto é alimentada por Deus (Ap 12, 6. 14), como Israel, reino de sacerdotes (Ex 19, 6), que fugiu de Faraó para o deserto (Ex 14, 8), levado por Deus sobre asas de águia (Ex 19, 4), onde também foi alimentado por Deus (Ex 16).

Diante de todas essas alusões reais, é bastante claro que a mulher de Ap 12 é uma rainha, a Rainha-Mãe. Mas quem é essa mulher? As ligações da mulher com a família de Israel em Gn 37, com o povo de Israel em Êxodo e com Jerusalém em Isaías evidenciam que essa mulher representa o povo de Deus. Entretanto, ao interpretar Ap 12 à luz do Evangelho de São João, é possível perceber que essa mulher também é a Virgem Maria, a personificação da Igreja.

Há vários paralelos entre Ap 12 e Jo 19, 25-27, onde se lê: “Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo a quem amava, disse à mãe: ‘Mulher, eis o teu filho!’ Depois disse ao discípulo: ‘Eis tua mãe!’ A partir daquela hora, o discípulo a acolheu em sua casa”.

O primeiro paralelo é que em ambas as passagens há uma mulher que é mãe do Cristo, o Rei.

O segundo é que nas duas passagens a mulher está angustiada com dores para dar à luz, o que pode ser percebido lendo Jo 19, 25-27 à luz de Jo 16, 20-21. Nessa última passagem, Jesus fala da tristeza que os discípulos sentirão com sua morte e da alegria que eles terão com a sua ressurreição, usando a imagem de uma mulher que durante a “hora” do parto sente angústia, mas depois do nascimento do filho experimenta alegria. Há muitas semelhanças entre Jo 16 e 19, o que indica que as passagens devem ser lidas juntas: ambas falam da morte de Jesus, da maternidade, da “mulher” e da “hora”. Nesse sentido, a Virgem Maria, discípula por excelência que, segundo a Tradição, não teve dores de parto ao dar à luz Jesus, sentiu a angústia das “dores de parto” ao vê-lo morrer na cruz (cf. Lc 2, 35). Mas essa tristeza foi substituída pela alegria na ressurreição.

O terceiro paralelo é que, assim como em Ap 12 as dores de parto e o nascimento do filho (a morte e a ressurreição de Cristo) estão ligados com a expulsão do diabo do céu, assim também em João eles são a “hora” (Jo 19, 27) em que o príncipe deste mundo é expulso (Jo 12, 27-31).

Finalmente, tanto a mulher de Ap 12 quanto a mulher de Jo 19 são apresentadas como a mãe do Cristo e de outros filhos. Em Ap 12, os outros filhos são “os que guardam os mandamentos de Deus e mantêm o testemunho de Jesus” (Ap 12, 17), e em Jo 19 são “o discípulo amado”, que representa exatamente aqueles que guardam os mandamentos e, por isso, são amados por Deus e por Jesus (Jo 14, 21-23).

Desse modo, a mulher de Jo 19, a Virgem Maria, é a mesma mulher de Ap 12, que é apresentada como Rainha-Mãe. Portanto, Nossa Senhora é a Rainha-Mãe.

Conclusão

Diante das evidências do Novo Testamento apresentadas neste artigo, devemos reconhecer que a Virgem Maria é a Rainha-Mãe. Como Rainha-Mãe, Nossa Senhora participa da autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo no céu e na terra (Mt 28, 18), em antecipação a toda a Igreja (Ap 3, 21; 4, 4; 20, 4-6; 22, 4-5), mas de forma muito mais proeminente. É ela quem se assenta à direita de Cristo no seu Reino (cf. Mt 20, 20-23), como as rainhas-mães do antigo Israel (1Rs 2, 19; Sl 44 [45], 10 [9]) e, portanto, possui a autoridade suprema abaixo apenas de Cristo. Depois da sua assunção, foi colocada acima inclusive dos anjos, como seu Filho depois da sua ascensão (Hb 1, 4; cf. Hb 2, 5-9). Além disso, como Rainha-Mãe, ela exerce a função de Advogada, intercedendo por nós (Jo 2, 1-11; cf. 1Rs 2, 19-20), e, podemos presumir, também a de Conselheira (cf. 2Cr 22, 3; Pv 31; Dn 5, 10-12). Esse ofício de Rainha-Mãe ela exercerá eternamente, como eterno é o reino de seu Filho (Lc 1, 33), pois ao contrário dos reis e rainhas deste mundo, sujeitos à morte, depois de sua assunção ao céu em corpo e alma, como Cristo, ela “não morre mais. A morte não tem mais domínio sobre” ela (Rm 6, 9). Desse modo, ao reinar com Nosso Senhor Jesus Cristo (o novo Adão), Nossa Senhora (a nova Eva) cumpre o desígnio original de Deus, de que a mulher (Eva) reinasse com o homem (Adão: Gn 1, 28) e de que a mãe reinasse com o filho (Gn 3, 15).

Ao concluirmos, nada mais apropriado do que rezar a oração “Salve Rainha”, reconhecendo Nossa Senhora como “Rainha”, “Mãe” e “Advogada”:

“Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, Salve! A vós bradamos, os degredados filhos de Eva, a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas! Eia, pois, Advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei, e depois deste desterro mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre! Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amém”.

Leia também: A Virgem Maria é a Rainha-Mãe (Parte 1)

Para se aprofundar neste tema, leia o livro “Queen Mother: A Biblical Theology of Mary’s Queenship”, de Edward Sri, que serviu como base para esses artigos.

03/09/2022

A Virgem Maria é a Rainha-Mãe (Parte 1)

Artigo de André Aloísio publicado no blog do Pocket Terço, dia 02/09/2022.

Provavelmente todos os católicos sabem que a Virgem Maria é a Rainha-Mãe. Ao rezarmos a oração “Salve Rainha” ao final do Rosário, por exemplo, chamamos Nossa Senhora de “Rainha” e de “Mãe”, e no quinto dos Mistérios Gloriosos, meditamos na coroação de Nossa Senhora como Rainha do Céu e da Terra. O que talvez poucos católicos saibam é que esse título e a realidade comunicada por ele estão profundamente enraizados na Sagrada Escritura. Neste artigo, vamos examinar a base bíblica para essa verdade.

O reinado da mulher em Gênesis 1-3

O propósito de Deus sempre foi que tanto o homem quanto a mulher reinassem sobre toda a criação como representantes de Deus. Deus criou o homem do pó da terra (Gn 2, 7), como os reis que eram levantados do pó (1Rs 16, 2-3; cf. 1Sm 2, 6-8; Sl 112 [113], 7), e soprou em suas narinas o sopro da vida (Gn 2, 7), associado em Lm 4, 20 com o rei de Israel (cf. Is 11, 1-2). Além disso, em Gn 1, 26-27, Deus criou o ser humano, homem e mulher, à sua própria imagem, linguagem usada no Antigo Oriente Próximo para descrever reis. Como imagem de Deus, tanto o homem quanto a mulher deveriam submeter a terra e dominar sobre todos os animais (Gn 1, 26-30; cf. Sl 8, 6-9 [5-8]). Por isso, em Gn 2, 18-20, o homem dá nome a todos os animais, inclusive aos selvagens, exercendo sua autoridade real sobre eles.

A associação da mulher ao homem no reinado continua em Gn 3, 14-15. Após a tentação da serpente e o pecado do ser humano, Deus se dirige à serpente, um dos animais selvagens (Gn 3, 1) sobre os quais o ser humano deveria dominar, e lhe amaldiçoa a comer pó (Gn 3, 14), linguagem que no Sl 71 [72], 9 descreve o domínio do rei de Israel sobre os seus inimigos. Na sequência, Deus diz à serpente que haveria três inimizades a partir daquele momento: entre a serpente e a mulher, entre a descendência da serpente e a descendência da mulher, e entre a serpente e a descendência da mulher (Gn 3, 15). A descendência da mulher, inclusive, feriria a cabeça da serpente, presumivelmente com seu pé, que é ferido, o que também está ligado com o reinado do rei de Israel sobre os inimigos (Nm 24, 17; 2Sm 22, 37-43; Sl 88 [89], 24 [23]; 109 [110], 1. 6; cf. Sl 8, 7 [6]). A mulher que é mãe, porém, também participa dessa vitória e domínio sobre a serpente juntamente com seu filho. Isso pode ser percebido tanto no fato de que o domínio sobre a serpente é o próprio domínio sobre os animais de Gn 1, 28, no qual a mulher está envolvida, quanto no fato de que no Antigo Testamento mulheres são descritas como ferindo a cabeça de seus inimigos (Jz 4, 17-21; 9, 53; Jt 13, 4-8; Et 5-7), numa alusão a esta passagem de Gn 3, 15.

Esse reinado da mulher com o homem, e especialmente da mãe com o filho, fica ainda mais claro e evidente a partir da instituição da rainha-mãe no antigo Israel.

A rainha-mãe no antigo Israel

No Antigo Oriente Próximo, era comum que os reis tivessem muitas mulheres. Nessa situação, o ofício de rainha não era exercido pelas mulheres do rei ou por uma delas, o que causaria grande rivalidade, mas pela mãe do rei, a rainha-mãe. Ela participava da autoridade real do seu filho e também atuava como conselheira (Dn 5, 10-12; Pv 31) e advogada.

Quando Israel se tornou uma monarquia, pelo menos a partir de Salomão, também passou a ter como rainha a mãe do rei. O termo hebraico usado no Antigo Testamento para descrever essa rainha-mãe é “gebirah” (1Rs 15, 13; 2Rs 10, 13; Jr 13, 18; 29, 2; 2Cr 15, 16), que significa “senhora” ou “rainha”.

A rainha-mãe ocupava uma posição de destaque no reinado de Israel. Quando os livros de Reis e Crônicas descrevem o início do reinado de um descendente de Davi, quase sempre mencionam o nome de sua mãe (1Rs 14, 21; 15, 2. 10; 22, 42; 2Rs 8, 26; 12, 1; 14, 2; 15, 2. 33; 18, 2; 21, 1. 19; 22, 1; 23, 31. 36; 24, 8. 18; 2Cr 12, 13; 13, 2; 20, 31; 22, 3; 24, 1; 25, 1; 26, 3; 27, 1; 29, 1). A mãe do rei davídico também é listada entre os membros da corte real, imediatamente após o rei e antes das mulheres do rei e dos seus oficiais (2Rs 24, 12. 15; Jr 29, 2; cf. Jr 22, 26), mostrando que sua posição só era menor que a do rei. Essa posição da rainha-mãe era à direita do rei, a posição de honra máxima na Bíblia, que indica participação no reinado (cf. Sl 109 [110], 1), como pode ser percebido nas palavras do salmista em Sl 44 [45], 10 [9], que se dirige ao rei, dizendo: “à tua direita está a rainha-mãe, ornada com ouro de Ofir”. De fato, em Jr 13, 18. 20, tanto o rei quanto a rainha-mãe são descritos com coroas e é dito que a eles foi confiado um rebanho.

Três exemplos, dois negativos e um positivo, ilustram a grande autoridade da rainha-mãe. O primeiro é de Maaca, mãe do rei Asa. Em 1Rs 15, 13, é dito que Asa “destituiu a sua mãe, Maaca, como rainha-mãe, porque ela havia feito um ídolo abominável em honra de Astarte”, indicando que ela ocupava uma posição importante no reino. O segundo é de Atalia, mãe do rei Ocozias. Em 2Cr 22, 3, Atalia é apresentada como conselheira do rei Ocozias, e em 2Rs 11, 1-3, ao saber que seu filho havia morrido, Atalia matou toda a família real, com exceção de Joás, e reinou sozinha durante seis anos.

O terceiro exemplo é de Betsabeia, mãe do rei Salomão e provavelmente a primeira rainha-mãe de Israel. Em 1Rs 2, 13-18, Adonias pede que Betsabeia interceda por ele diante do rei Salomão, funcionando, assim, como advogada. Então, “Betsabeia foi ter com o rei Salomão para falar-lhe a respeito de Adonias. O rei levantou-se e foi ao seu encontro, prostrou-se diante dela, assentou-se no trono e mandou pôr também um trono para a mãe do rei, a qual se sentou à sua direita” (1Rs 2, 19). Betsabeia pede que Salomão não a decepcione no pedido que fará, ao que o rei responde: “Pede, mãe. Com certeza, não te decepcionarei” (1Rs 2, 20). Nessa passagem, a posição de autoridade de Betsabeia fica bastante clara pela reverência que o rei Salomão lhe presta, prostrando-se diante dela, pelo fato de ela se sentar à direita dele num trono e pela força da sua intercessão, a ponto de Adonias recorrer a ela e Salomão dizer que lhe atenderia. Se o pedido dela não foi atendido, como se vê na sequência (1Rs 2, 21-25), isso aconteceu por causa do absurdo do pedido de Adonias, não por falta de autoridade na intercessão de Betsabeia. Tamanha era a sua autoridade que a passagem de Ct 3, 11 chega mesmo a dizer que a mãe do rei Salomão o coroou com uma coroa no dia do seu casamento.

Se a mãe do rei, descendente de Davi, era a rainha-mãe no antigo Israel, era de se esperar que a Virgem Maria, como mãe do Senhor Jesus Cristo, descendente de Davi por excelência, fosse a Rainha-Mãe no novo Israel, a Igreja. De fato, é exatamente isso que vemos no Novo Testamento. Mas isso é assunto para um próximo artigo.

Leia também: A Virgem Maria é a Rainha-Mãe (Parte 2)

Conheça os livros oficiais mais importantes da Igreja Católica

Artigo de André Aloísio publicado no blog do Pocket Terço, dia 31/08/2022.

Além da Bíblia Sagrada, de longe o livro mais importante da Igreja Católica, por ser a Palavra de Deus escrita por inspiração do Espírito Santo (Dei Verbum 9. 11), a Santa Igreja possui outros livros oficiais importantíssimos que apresentam a sua doutrina, disciplina e liturgia. Neste artigo, vamos falar dos três livros oficiais mais importantes da Igreja Católica, com foco no rito latino.

Catecismo da Igreja Católica

O Catecismo da Igreja Católica é resultado de seis anos de trabalho de uma comissão presidida pelo, na época, Cardeal Joseph Ratzinger (atual Papa Emérito Bento XVI), com contribuições de todo o Episcopado. Foi promulgado pelo Papa São João Paulo II em 1992, substituindo, assim, o Catecismo Romano de 1566, que havia sido promulgado pelo Papa São Pio V.

O Catecismo tem como objetivo apresentar a doutrina católica a partir da Sagrada Escritura, da Tradição Apostólica (especialmente nos Padres e na Liturgia) e do Magistério da Igreja (Papas e Concílios). Ele está dividido em quatro partes:

A primeira parte trata da Profissão da Fé. Depois de tratar da revelação divina na Escritura e na Tradição, e da fé que acolhe essa revelação, essa parte prossegue com uma exposição do Credo Apostólico, completada com referências ao Credo Niceno, apresentando vários assuntos: a Trindade e Deus Pai, a criação dos anjos e do homem, a queda, Jesus Cristo na encarnação, ministério, morte, ressurreição, ascensão e segunda vinda, o Espírito Santo, a Igreja e a comunhão dos santos, a Virgem Maria, a remissão dos pecados, a ressurreição e a vida eterna.

A segunda parte fala da Celebração do Mistério Cristão, que é a liturgia. Primeiro, a liturgia é apresentada de maneira geral e, na sequência, os sete sacramentos são explicados: os sacramentos da iniciação cristã (Batismo, Confirmação e Eucaristia), os sacramentos de cura (Reconciliação e Unção dos Enfermos) e os sacramentos do serviço da comunhão (Ordem e Matrimônio). Conclui-se com os sacramentais e as exéquias cristãs.

A terceira parte apresenta a Vida em Cristo. Na primeira seção, vários assuntos são trabalhados, como as bem-aventuranças, a liberdade, a moral, as paixões, a consciência, as virtudes cardeais e teologais, os dons e os frutos do Espírito, o pecado, a comunidade humana, a lei moral, a graça, a justificação e os preceitos da Igreja. A segunda seção apresenta uma exposição dos dez mandamentos: amar a Deus de todo coração (três primeiros mandamentos) e amar ao próximo como a si mesmo (os outros sete mandamentos).

Finalmente, a quarta parte é dedicada à Oração Cristã. Ela inicia com uma abordagem geral sobre a oração e termina com uma exposição da Oração do Senhor, o Pai Nosso, explicando o prefácio e as sete petições.

Código de Direito Canônico

O Código de Direito Canônico é o conjunto das leis eclesiásticas (cânones) da Igreja Católica de Rito Latino. Ele é fruto de um longo processo de promulgação e compilação de cânones, que começa com os cânones do Concílio de Jerusalém para admissão dos gentios na Igreja (At 15), passa pelos cânones de vários Concílios Ecumênicos e Locais, como o de Niceia em 325, e prossegue com várias compilações não oficiais de cânones, como a Coleção Dionisiana (séc VI), o Decreto de Burcardo de Worms (séc. XI) e o Decreto de Graciano (ca. 1140).

A primeira compilação oficial de cânones – a primeira versão do Código de Direito Canônico – foi iniciada pelo Papa São Pio X em 1904 e promulgada pelo Papa Bento XV em 1917. O Papa São João XXIII anunciou a reforma desse Código em 1962, que foi iniciada pelo Papa Paulo VI em 1964 e concluída com a promulgação do novo Código pelo Papa São João Paulo II em 1983. O Código de Direito Canônico atual é o de 1983, com algumas alterações realizadas pelos papas São João Paulo II, Bento XVI e, principalmente, Francisco.

O Código de Direito Canônico é composto por sete livros:

No primeiro livro, são apresentadas normas gerais.

O segundo livro apresenta as normas relacionadas ao povo de Deus. Aqui se trata dos fiéis leigos e clérigos, prelaturas pessoais e associações de fiéis; da constituição hierárquica da Igreja com o Papa, o Colégio dos Bispos, as Igrejas Particulares e seus agrupamentos; e dos institutos de vida consagrada e das sociedades de vida apostólica.

O terceiro livro trata do múnus de ensinar da Igreja, com normas sobre a pregação, a catequese, a ação missionária, a educação católica em escolas e universidades, os meios de comunicação social, como os livros, e a profissão de fé.

O quarto livro apresenta as normas ligadas ao múnus santificador da Igreja, tratando dos sete sacramentos, dos sacramentais, da liturgia das horas, das exéquias eclesiásticas, do culto dos santos, imagens e relíquias, do voto e juramento, dos lugares e dos templos sagrados.

O quinto livro trata das normas sobre os bens temporais da Igreja.

O sexto livro apresenta as sanções na Igreja, tratando sobre os delitos e penas.

Por fim, o sétimo livro trata dos processos eclesiásticos.

Missal Romano

O Missal Romano é o livro litúrgico da Igreja Católica de Rito Latino. Ele contém os textos a serem usados na celebração da missa, assim como as instruções sobre como proceder durante sua celebração (rubricas).

Antes do Concílio de Trento, não havia um livro litúrgico comum para toda a Igreja Latina, ainda que o rito da missa na Europa seguisse basicamente o rito da Igreja de Roma. Foi depois do Concílio de Trento, em 1570, que o Papa São Pio V promulgou a primeira edição oficial do Missal Romano. Esse Missal passou por diversas revisões com os Papas Clemente VIII, em 1604, Urbano VIII, em 1634, Leão XIII, em 1884, São Pio X e Bento XV, em 1920, e Pio XII e São João XXIII, em 1962.

Após o Concílio Vaticano II, em 1969, o Papa Paulo VI promulgou uma nova edição do Missal Romano. Esse Missal Romano passou por duas revisões, com os Papas Paulo VI, em 1975, e São João Paulo II, em 2002, que é a versão atualmente em uso no Rito Ordinário da Igreja Latina.

O Missal Romano inicia com instruções gerais sobre a liturgia e com normas sobre o ano litúrgico e o calendário.

Na sequência, os textos utilizados na missa são apresentados em duas categorias: o Próprio da Missa contém as orações que mudam de acordo com o tempo litúrgico: Advento, Natal, Quaresma, Tríduo Pascal, Tempo Pascal e Tempo Comum; o Ordinário da Missa contém as orações fixas que são rezadas sempre, divididas de acordo com as partes da missa: ritos iniciais, liturgia da Palavra, liturgia eucarística, rito da comunhão e ritos finais.

O Missal prossegue com o Próprio dos Santos, que contém as orações usadas para as celebrações de santos específicos na ordem do calendário, e o Comum dos Santos, com orações comuns para a dedicação de uma Igreja, a Virgem Maria, os Mártires, os Pastores, os Doutores da Igreja, as Virgens e várias categorias de santos.

Por fim, o Missal apresenta os textos para as missas rituais, missas e orações para várias ocasiões, missas votivas e missas dos fiéis defuntos, além de um apêndice com cantos, ritos e orações.

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