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16/09/2022

Entenda o calendário litúrgico da Igreja Católica

Artigo de André Aloísio publicado no blog do Pocket Terço, dia 15/09/2022.

O calendário litúrgico da Igreja Católica é constituído por três anos, cada ano com cinquenta e dois domingos, organizados de tal modo a celebrar as principais etapas da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, especialmente seu nascimento (Natal) e sua morte e ressurreição (Páscoa).

Domingo e Sexta-feira

O domingo é o dia de celebração por excelência, desde a era apostólica (At 20, 7; 1Cor 16, 2), por ser o dia da ressurreição de Cristo (Jo 20, 1. 19. 26). Ele é a Páscoa semanal, dia no qual os fiéis se reúnem para ouvir a Palavra de Cristo especialmente no Evangelho e se alimentar de Cristo na Eucaristia, celebrando sua ressurreição.

Além disso, desde o início da Igreja, como podemos ver no documento cristão do final do século I conhecido como Didaquê, a sexta-feira é um dia de penitência, no qual se faz abstinência de carne semanalmente em recordação da paixão e morte de nosso Senhor, que morreu numa sexta-feira.

Natal e Páscoa

Cada ano litúrgico gira em torno de dois grandes centros: o Natal e a Páscoa, sendo essa última a solenidade mais importante do ano litúrgico. O Natal ou nascimento de Jesus (Lc 2, 1-20) é comemorado em uma data fixa, dia 25 de dezembro, no início do solstício do inverno no hemisfério norte. A partir do solstício do inverno, o Sol fica cada vez mais alto no céu e os dias cada vez mais longos, representando o nascimento do “sol da justiça”, Cristo, “trazendo a cura em suas asas” (Ml 3, 20).

A Páscoa, que comemora a ressurreição do Senhor (Jo 20, 1-9), por outro lado, é celebrada em uma data móvel, no primeiro domingo após a Páscoa judaica, que ocorre na primeira lua cheia após o equinócio da Primavera no hemisfério norte. Assim, o domingo da Páscoa pode cair entre 22 de março e 25 de abril.

Essas duas solenidades são antecedidas e seguidas por períodos com quase a mesma duração.

Ciclo do Natal

O Natal é antecedido pelo Advento, que começa quatro domingos antes do Natal, dando início ao ano litúrgico. O Advento é um período de penitência e de preparação para a vinda de Cristo, utilizando o roxo como cor litúrgica. As duas primeiras semanas são marcadas pela expectativa da segunda vinda de Cristo, enquanto as duas últimas aguardam a sua primeira vinda no Natal. O terceiro domingo do Advento é o “Domingo da Alegria”, onde nos alegramos com a proximidade da chegada de Jesus (Lc 1, 28), e o roxo dá lugar ao rosa na liturgia. Dentro desse período, no dia 8 de dezembro, se celebra com a cor litúrgica branca a solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora (Lc 1, 26-38), que consistiu na preservação da Virgem Maria do pecado original, para que estivesse preparada para conceber e dar à luz o próprio Deus.

O Natal é seguido pelo Tempo do Natal, que vai até a festa do Batismo do Senhor, no domingo ou segunda-feira imediatamente após o dia 6 de janeiro. O Natal e o Tempo do Natal têm o branco como cor litúrgica. O período entre o Natal e a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (Lc 2, 16-21), uma semana após o Natal, no dia 1º de janeiro, é chamado de Oitava de Natal. Dentro do Tempo do Natal há mais algumas solenidades e festas: festa dos Santos Inocentes (Mt 2, 13-18), no dia 28 de dezembro, única do período com a cor litúrgica vermelha; festa da Sagrada Família (Mt 2, 13-23), no primeiro domingo após o Natal; festa do Santíssimo Nome de Jesus, cerca de oito dias após o Natal, quando Jesus foi circuncidado e recebeu o nome (Lc 2, 21), no dia 3 de janeiro; solenidade da Epifania, que comemora a manifestação de Jesus como Cristo, especialmente aos reis magos (Mt 2, 1-12), no dia 6 de janeiro, que no Brasil é transferida para o domingo mais próximo; e a festa do Batismo do Senhor (Mt 3, 13-17), que encerra o Tempo do Natal. O Advento e o Tempo do Natal formam juntos o Ciclo do Natal.

Existem solenidades e festas fora do Tempo do Natal que estão a ele relacionados: a festa da Natividade de Nossa Senhora (Mt 1, 1-23), no dia 8 de setembro; a solenidade de São José (Mt 1, 16. 18-21. 24), no dia 19 de março; a solenidade da Anunciação do Senhor (Lc 1, 26-38), nove meses antes do Natal, no dia 25 de março; a festa da Visitação da Nossa Senhora (Lc 1, 39-56), no dia 31 de maio; a solenidade da Natividade de São João Batista (Lc 1, 57-66), seis meses antes do Natal (cf. Lc 1, 36), no dia 24 de junho, próximo ao solstício do verão no hemisfério norte, a partir da qual o Sol fica cada vez mais baixo no céu e os dias cada vez mais curtos, até o Natal, lembrando as palavras de São João Batista: “É preciso que ele cresça, e eu diminua” (Jo 3, 30); e a festa da Apresentação do Senhor (Lc 2, 22-40), quarenta dias após o Natal, no dia 2 de fevereiro. Todas elas têm como cor litúrgica o branco.

Ciclo da Páscoa

A Páscoa é antecedida pela Quaresma, que se inicia com a Quarta-Feira de Cinzas, dia de penitência e jejum (Jl 2, 12-18; Mt 6, 1-18), quarenta dias antes da Páscoa, sem contar os domingos, num total de quase sete semanas. Na Bíblia, o número quarenta está bastante associado com a penitência e o jejum. O Dilúvio, que foi um juízo contra o pecado, durou quarenta dias (Gn 7, 17). Moisés ficou quarenta dias sem comer e sem beber, quando recebeu a Lei (Ex 34, 28). Israel caminhou quarenta anos no deserto em penitência pelos seus pecados (Nm 14, 34). Elias caminhou quarenta dias sem comer até o Monte Horeb (1Rs 19, 8). Os ninivitas fizeram penitência por quarenta dias, para que Deus não destruísse sua cidade (Jn 3, 4-10). E, especialmente, o Senhor Jesus jejuou por quarenta dias no deserto (Mt 4, 1-2). Assim, a Quaresma é um período de penitência, em que se recomenda a abstinência de carne, em preparação para a Páscoa. A cor litúrgica desse período é o roxo, mas no quarto domingo da Quaresma utiliza-se o rosa.

O domingo imediatamente antes da Páscoa é o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, em que se recorda tanto a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (Mt 21, 1-11) quanto sua paixão e morte (Mt 26–27). Sua cor litúrgica é o vermelho. Esse domingo dá início à Semana Santa, a semana mais importante do ano litúrgico. Dentro dessa semana, merecem destaque a bênção feita pelo bispo, na Quinta-feira Santa, dos santos óleos dos Catecúmenos, do Crisma e dos Enfermos, usados nos sacramentos correspondentes, e especialmente o Tríduo Pascal.

O Tríduo Pascal põe fim à Quaresma e prepara mais diretamente para a Páscoa. Ele envolve três momentos. Primeiro, a Missa da Instituição da Eucaristia com a Cerimônia do Lava-Pés (1Co 11, 23-26; Jo 13, 1-15), na noite da Quinta-feira Santa, com a cor litúrgica branca. Depois dessa missa, guarda-se a hóstia consagrada para a Sexta-feira Santa. O segundo momento é a Celebração da Paixão do Senhor, na tarde da Sexta-feira Santa, dia de jejum e penitência, em que se recorda a paixão e morte de Cristo a partir do Evangelho de João (Jo 18–19), com a cor litúrgica vermelha. Esse é o único dia do ano em que não há Eucaristia, apenas comunhão da hóstia consagrada no dia anterior. Os fiéis são convidados a contemplar o Cristo crucificado que morre na cruz. O terceiro momento é a Vigília Pascal, a mãe de todas as vigílias, na noite do Sábado Santo, em que se aguarda a ressurreição de Cristo (Mt 28, 1-10) no Domingo de Páscoa, com a cor litúrgica branca, e em que os catecúmenos recebem o Batismo, a Crisma e a Primeira Comunhão.

A Páscoa é seguida pelo Tempo Pascal, que vai até o Domingo de Pentecostes, cinquenta dias depois da Páscoa, num total de sete semanas. A Páscoa e o Tempo Pascal têm o branco como cor litúrgica. A semana entre o Domingo da Páscoa e o domingo seguinte, o Domingo da Divina Misericórdia (Jo 20, 19-31), é chamada de Oitava da Páscoa. No Tempo Pascal são celebradas a solenidade da Ascensão do Senhor (Lc 24, 46-53), quarenta dias depois da Páscoa, numa quinta-feira, que no Brasil é transferida para o domingo seguinte, com a cor litúrgica branca; e a solenidade de Pentecostes, em que se comemora a descida do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os apóstolos no cenáculo (At 2, 1-11), com a cor litúrgica vermelha. Nos nove dias entre a Quinta-feira da Ascensão e o Domingo de Pentecostes, assim como os discípulos oraram pela vinda do Espírito Santo (At 1, 10-14; 2.1-4), também oramos na Novena de Pentecostes, a mãe de todas as novenas. A Quaresma e o Tempo Pascal formam juntos o Ciclo da Páscoa.

Existem solenidades e festas fora do Tempo Pascal que estão a ele relacionados: a solenidade da Santíssima Trindade (Jo 16, 12-15), no domingo seguinte ao Domingo de Pentecostes; a solenidade de Corpus Christi, que celebra a presença real e substancial de Cristo na Eucaristia (Jo 6, 51-58), na quinta-feira imediatamente após o domingo da Santíssima Trindade; a solenidade do Sagrado Coração de Jesus que celebra o Coração Transpassado na cruz, do qual jorrou sangue e água (Jo 19, 31-37), na segunda sexta-feira após o Corpus Christi; a festa da Transfiguração do Senhor, antecipação da sua glorificação na Páscoa (Lc 9, 28-36), no dia 6 de agosto; a solenidade da Assunção da Nossa Senhora (Ap 11, 19–12, 6. 10), participação na ressurreição de seu Filho, no dia 15 de agosto, que no Brasil é transferida para o domingo seguinte; e a festa da Exaltação da Santa Cruz (Jo 3, 13-17), no dia 14 de setembro. Todas elas têm como cor litúrgica o branco, com exceção da festa da Exaltação da Santa Cruz, cuja cor litúrgica é o vermelho.

Tempo Comum

O tempo litúrgico fora dos Ciclos do Natal e da Páscoa, entre a festa do Batismo do Senhor e o início da Quaresma, e entre o Domingo de Pentecostes e o início do Advento, é chamado de “Tempo Comum” e tem como cor litúrgica o verde. Nesse tempo se celebra, especialmente aos domingos, tudo o que Jesus disse e fez para a nossa salvação.

Além das solenidades e festas já mencionadas, no Tempo Comum temos também a solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, no dia 29 de junho, que no Brasil é transferida para o domingo seguinte, com a cor litúrgica vermelha; a solenidade da Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, no dia 12 de outubro, com a cor litúrgica branca; a solenidade de Todos os Santos, no dia 1º de novembro, que no Brasil é transferida para o domingo seguinte, com a cor litúrgica branca; a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, no dia 2 de novembro, com a cor litúrgica preta; e a solenidade do Cristo Rei, no último domingo do ano litúrgico, imediatamente antes do início do Advento, preparando a espera da vinda do Senhor, com a cor litúrgica branca.

Solenidades, Festas, Memórias e Dias de Preceito

No ano litúrgico há solenidades, festas e memórias. As solenidades, já mencionadas neste artigo, são as celebrações de mais alto grau, reservadas aos mistérios mais importantes da fé, relacionados ao Nosso Senhor Jesus Cristo, a Nossa Senhora, a São José e a santos importantes para a história da salvação, como São João Batista, São Pedro e São Paulo.

As festas honram algum mistério ou título de Jesus, de Maria e de anjos e santos particularmente relevantes, como os apóstolos, os evangelistas e outros santos e eventos importantes na Bíblia e na história. Além das festas já mencionadas neste artigo, outras dignas de nota são: Nossa Senhora do Carmo, no dia 16 de julho; Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina, no dia 12 de dezembro; Arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael, no dia 29 de setembro; os Santos Anjos da Guarda, no dia 2 de outubro; a Cátedra de São Pedro, que recorda a autoridade do Papa e de seu Magistério, no dia 22 de fevereiro; e a Dedicação da Basílica de Latrão, a Catedral do Papa, no dia 9 de novembro.

As memórias são geralmente a celebração de um santo, mas podem também celebrar algum aspecto de Jesus ou de Maria. Alguns importantes exemplos são o Imaculado Coração de Maria, no sábado seguinte à solenidade do Sagrado Coração de Jesus; Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, no dia 6 de junho; Nossa Senhora Rainha, no dia 22 de agosto; Nossa Senhora das Dores, no dia 15 de setembro; Nossa Senhora do Rosário, no dia 7 de outubro; e a Apresentação de Nossa Senhora, no dia 21 de novembro.

Das solenidades mencionadas neste artigo, são dias de preceito obrigatórios aos católicos todos os domingos do ano, todas as solenidades que caem no domingo e as solenidades de Santa Maria Mãe de Deus, de Corpus Christi, da Imaculada Conceição e do Natal.

Anos A, B e C

O calendário litúrgico é constituído por três anos: A, B e C. No ano A, o Evangelho lido aos domingos é o de São Mateus; no ano B, o de São Marcos; e no ano C, o de São Lucas. O Evangelho de São João é lido em algumas festas e solenidades e, especialmente, no Tempo Pascal. Nos demais dias da semana, todo ano são lidos os três Evangelhos Sinóticos no Tempo Comum, começando por São Marcos, seguido por São Mateus e, então, por São Lucas, e no Tempo do Natal e no Tempo da Páscoa, lê-se o Evangelho de São João.

As leituras são dispostas de tal modo que, a cada três anos, quase a totalidade dos quatro Evangelhos é lida nas missas, além de uma porção substancial do Antigo Testamento e do Novo Testamento.

Conclusão

Por fim, o calendário litúrgico não é apenas uma forma de recordar os eventos principais da história da salvação. Mais do que isso, ele atualiza o mistério de Cristo e os eventos salvíficos, tornando-os presentes e fazendo-nos participantes deles. Como diz o Catecismo da Igreja Católica, no número 1085:

“Na liturgia da Igreja, Cristo significa e realiza principalmente o seu mistério pascal. Durante a sua vida terrena, Jesus anunciava pelo seu ensino e antecipava pelos seus atos o seu mistério pascal. Uma vez chegada a sua ‘Hora’, Jesus vive o único acontecimento da história que não passa jamais: morre, é sepultado, ressuscita de entre os mortos e senta-Se à direita do Pai ‘uma vez por todas’ (Rm 6, 10; Hb 7, 27; 9, 12). É um acontecimento real, ocorrido na nossa história, mas único; todos os outros acontecimentos da história acontecem uma vez e passam, devorados pelo passado. Pelo contrário, o mistério pascal de Cristo não pode ficar somente no passado, já que pela sua morte, Ele destruiu a morte; e tudo o que Cristo é, tudo o que fez e sofreu por todos os homens, participa da eternidade divina, e assim transcende todos os tempos e em todos se torna presente. O acontecimento da cruz e da ressurreição permanece e atrai tudo para a vida”.

Por isso, cantamos no Natal: “Nasceu-nos ‘hoje’ um menino”. Na Quinta-feira Santa, o sacerdote diz na oração eucarística: “Na noite em que ia ser entregue, para padecer pela salvação de todos, isto é, ‘hoje’, ele tomou o pão em suas mãos, elevou os olhos a vós, ó Pai, deu graças e o partiu...”. E no Domingo da Páscoa, cantamos o Sl 117 (118): “’Este’ é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!”.

Que com esse novo entendimento do calendário litúrgico da Igreja Católica, a sua participação na liturgia seja mais frutuosa, para a glória de Deus e para o bem da sua alma!

Assista também: Tempos Litúrgicos

03/08/2022

Podemos fazer imagens de Deus?

Artigo de André Aloísio publicado no blog do Pocket Terço, dia 03/08/2022.

Em Êxodo 20, 3-5, no primeiro mandamento, Deus proíbe o povo de Israel de ter outros deuses e de fazer imagens para adorá-las:

“Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti qualquer ídolo ou figura do que existe em cima nos céus, ou embaixo na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles, nem os servirás, pois eu sou o SENHOR, teu Deus, um Deus zeloso…”.

É um fato bastante conhecido que, nesse mandamento, Deus não proíbe a confecção de qualquer tipo de imagem, mas apenas de ídolos, para fins de adoração, já que o próprio Deus mandou que o povo de Israel fizesse imagens: querubins de ouro em cima da arca da Aliança (Ex 25, 16-22; 1Rs 6, 23-27), animais e querubins no templo de Salomão (1 Rs 7, 28-30) e a serpente de bronze no deserto (Nm 21, 8-9). Portanto, não se pode usar o primeiro mandamento para proibir a confecção de imagens de Nossa Senhora, anjos e santos.

Entretanto, muitas pessoas ficam na dúvida se Deus pode ser representado por meio de imagens, por causa da passagem de Deuteronômio 4, 12.15-18, onde Moisés descreve a fala de Deus no monte Horeb (Sinai), ao entregar os Dez Mandamentos, e traz um mandamento a partir disso:

“Então, o SENHOR vos falou do meio do fogo. Ouvíeis a voz das palavras, mas não enxergáveis figura alguma, só havia uma voz! […] Tende muito cuidado! Não vistes figura alguma no dia em que o SENHOR vos falou no Horeb, do meio do fogo. Não vos entregueis à corrupção, fazendo qualquer estátua de alguma figura, qualquer ídolo com forma masculina ou feminina, forma de animal vivendo sobre a terra ou forma de ave voando no céu, forma de bicho rastejando pelo chão ou forma de qualquer peixe vivendo na água, debaixo da terra”.

Nessa passagem, Deus, de fato, proíbe Israel de representá-lo por meio de imagens. Como explicar, então, que a Igreja Católica, desde o início, como na Catacumba de Domitila, no século II, tem feito imagens do Senhor Jesus Cristo, que é Deus? A resposta a essa pergunta foi dada há muito tempo, pelo último dos Padres da Igreja: São João Damasceno.

No século VII, o Islamismo, que proibia representações de Deus, avançou para regiões anteriormente ocupadas por cristãos, inclusive no Oriente Médio, Oriente Próximo e em parte da Ásia Menor. Sob essa influência islâmica, no século VIII, alguns cristãos, conhecidos como iconoclastas (“quebradores de imagens”), começaram a se opor ao uso de imagens, inclusive de Nosso Senhor, usando passagens como a de Deuteronômio acima. É nesse contexto que São João Damasceno, monge e sacerdote sírio, reconhecido como Doutor da Igreja, escreve em favor das imagens do Cristo, lançando as bases para a decisão favorável às imagens do Sétimo Concílio Ecumênico, o Segundo de Nicéia, em 787. Comentando a passagem de Deuteronômio 4, 15-17, ele reconhece que o Deus invisível não pode ser retratado:

“Entenda que Ele proíbe a fabricação de imagens para servirem como ídolos, e que é impossível fazer uma imagem do imensurável, incircunscrito, Deus invisível. […] Que sabedoria a do legislador. Como descrever o invisível? Como retratar o inconcebível? Como dar expressão ao ilimitado, o imensurável, o invisível? Como dar forma a imensidão? Como pintar a imortalidade? Como localizar o mistério?” (Apologia contra os que condenam as imagens sagradas).

Todavia, ele continua explicando que a Encarnação do Filho de Deus inaugurou uma nova “economia” das imagens (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1159):

“É claro que quando você contempla a Deus, que é puro espírito, tornando-se homem por nossa causa, você será capaz de vesti-lo com a forma humana. Quando o Invisível se torna visível para a carne, então é possível retratar a imagem de sua forma. Quando Ele, que é puro espírito, sem forma ou limite, imensurável na imensidão de sua própria natureza, existindo como Deus, toma sobre Si a forma de servo em substância e em estatura, e um corpo de carne, então você pode desenhar Seu semblante, e mostrá-lo para qualquer pessoa disposta a contemplá-lo […] Desde a antiguidade, Deus o incorpóreo e incircunscrito nunca foi retratado. Agora, no entanto, quando Deus é visto revestido de carne, e conversando com os homens (Br 3, 38), eu faço uma imagem do Deus a quem eu vejo” (Apologia contra os que condenam as imagens sagradas).

Observe que a proibição de Deuteronômio tem um motivo: Israel não pode fazer imagens de Deus, porque não viu Deus no Sinai, mas apenas ouviu sua voz, sua Palavra. Porém, no Novo Testamento, “a Palavra se fez carne e veio morar entre nós”, e nós não apenas a ouvimos, mas também “contemplamos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. […] A Deus, ninguém jamais viu. O Deus Unigênito, que está no seio do Pai, foi quem o revelou” (Jo 1, 14.18); ou, como é dito em 1Jo 1, 1-3:

“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e nossas mãos apalparam da Palavra da Vida – vida esta que se manifestou, que nós vimos e testemunhamos, vida eterna que a vós anunciamos, que estava junto do Pai e que a nós se manifestou –, isso que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos…”.

Desse modo, se o motivo para se proibir imagens de Deus no Antigo Testamento era que Deus não tinha sido visto, e no Novo Testamento Deus foi visto, segue-se que a proibição não mais permanece. Por essa razão, São João Damasceno afirma, e a Igreja Católica com ele no Segundo Concílio de Niceia, que, a partir da encarnação, Deus pode ser representado por meio de imagens. Isso se aplica principalmente ao Filho, mas também ao Pai (“Quem me viu, viu o Pai” – Jo 14, 9) e ao Espírito Santo (“Eu vi o Espírito, como pomba, descer do céu e permanecer sobre ele” – Jo 1, 32). Continua sendo verdadeiro que não conseguimos representar o Deus incircunscrito, invisível. Mas uma imagem de Deus se propõe a representar apenas aquilo que Deus revelou e que se tornou visível.

Então, podemos fazer imagens de Deus? Não só podemos, como devemos:

“devem ser colocadas nas santas igrejas de Deus, sobre as alfaias e vestes sagradas, nos muros e em quadros, nas casas e nos caminhos […] tanto a imagem de nosso Senhor, Deus e Salvador, Jesus Cristo, como a de nossa Senhora, a puríssima e santa Mãe de Deus, a dos santos anjos e de todos os santos e justos” (Segundo Concílio de Niceia).

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